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quarta-feira, 28 de maio de 2014

RESENHA - Teologia Bíblica de VOS, Geerhardus.



Resenha
José Tiago Xavier Costa[1]*

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica Antigo e Novo Testamentos. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 495 p. Traduzido por Alberto Almeida de Paula do original inglês Biblical Theology (old and new testament) (1948)

Geerhardus Vos (1862-1949) nascido na Holanda imigrou em 1881 aos 19 anos para os Estados Unidos, com 31 anos de idade tornou-se professor de Teologia Bíblica no Princeton Seminary onde lecionou por 39 anos. Este teólogo holandês, tão respeitado em Princeton (EUA), veio a falecer aos seus 87 anos de idade. 
Geerhardus Vos é pouco conhecido no contexto evangélico brasileiro. Apenas no ano passado foi traduzida pela primeira vez ao português, a obra de Teologia Bíblica de Vos, sendo esta obra editada originalmente em 1949 pelo filho do autor, o Rev. Johannes G. Vos, foi licenciada por permissão especial da Wipf and Stock Publishers, tendo um caminho de 61 anos para chegar a nossas mãos e com uma boa tradução, diga-se de passagem. Interessante perceber que por mais que seja intitulada Teologia Bíblica Antigo e Novo Testamentos, este livro dedica 75% ao Antigo Testamento e, 25% ao Novo Testamento. Isso se dar, pelo fato do autor organizar seus argumentos no aspecto da abordagem progressivo da revelação, a chamada “progressão histórica” (p. 28), ou seja, o critério com que o autor escolheu a narrativa de seus argumentos foram às sequências históricas das narrativas bíblicas ocorridas em seus respectivos momentos da história da redenção do povo de Deus. Este método descreve a teologia bíblica utilizado pelo autor.  Vos declara: “A teologia bíblica lida com a revelação como sendo atividade divina, não o produto final dessa atividade. Sua natureza e método de procedimento terão naturalmente, de manter estreito contato e reproduzir,…, as características do trabalho divino…” “… Revelação é a interpretação da redenção.” (p. 16). 
Em seu livro, Vos comenta o nascimento da abordagem da Teologia Bíblica, como um nascimento no ambiente racionalista, como também, a teologia bíblica recebe vários ataques, entre elas as correntes filosóficas, especificamente, segundo Vos, a filosofia da evolução (p. 22). Ele apresenta a Teologia Bíblica como designada como uma coleção de textos- prova no estudo da teologia sistemática. (p. 20). O aparecimento de um método chamado “hiperescolático” no tratamento da dogmática foi tratado na época dos pietistas como um protesto. Vos, informa que o primeiro a trazer a abordagem de uma forma diferenciada foi J. P. Gabler. No entanto, Vos declara que o Gabler era influenciado pelo racionalismo da época. (p. 20). E apresenta a característica principal dessa escola o “… desrespeito pela História e tradição e o correspondente louvor à razão como a única e suficiente fonte do conhecimento religioso.” (p. 20). 
Importante salientar que Vos não escreveu literalmente o objetivo de sua obra, no entanto, ele apresentou este livro em resposta ao racionalismo de sua época. Segundo Vos, a Teologia Bíblica, tem sido afetada desde o seu nascimento pelo racionalismo, como também do positivismo. (p. 23). Vos, observa os ataques do racionalismo de sua época direcionado contra Deus na esfera da crença do cristianismo. O mesmo declara: “O racionalismo tem atacado a religião há tanto tempo e de modo tão violento que ela não pode parecer incorreta em virar a mesa e por um instante criticar o racionalismo pela perspectiva religiosa. O ponto principal a se observar é a autoassertividade do racionalismo contra Deus na esfera da verdade e da crença.… Quando se examina o quadro mais de perto, o protesto conta a tradição é um protesto contra Deus como a fonte da tradição, e o modo de tratamento da teologia bíblica não têm como objetivo honrar a História como forma de tradição, mas desacreditar tanto a História como a tradição”. (p. 21) Vos, apresenta em seu livro as influências do racionalismo a teologia bíblica (p. 23). Ele alcança o seu objetivo quando apresenta os princípios orientadores, do qual, o autor alista da seguinte maneira: (a) O caráter infalível da revelação; (b) A teologia bíblica deva reconhecer a objetividade da base da revelação; (c) A Teologia bíblica deva estar envolvida com a questão da inspiração. (p. 23).
Em minha opinião é importante salientar, que Geerhardus Vos é tão seguro e bíblico em suas apresentações que uma leitura superficial deste livro seria infrutífero para a compreensão dos fatos que o autor aborda em seu livro.
Considero este livro como apologético, no que se refere à defesa da Teologia Bíblica diante do racionalismo da época do autor. O auge, ou o objetivo deste livro encontra seu fundamento quando Geerhardus Vos apresenta uma Teologia Bíblica totalmente separada das filosofias anticristã. O autor aborda roteirizando passo a passo os argumentos da chamada escola criticismo de Wellhausen, como também seus representantes, como por exemplo, o próprio Wellhausen, Stade, Robertson Smith, Kuenen, Winkler, Smend, Dilman, Gabler, Hengstenberg e Baldensperger. Na página 23 do livro, Vos apresenta o que ele chama de “Princípios orientadores”, como uma espinha dorsal para compreensão da teologia bíblica descrita nesse livro.

O livro é dividido em duas partes, Antigo e Novo Testamentos, com um total de dezenove capítulos, sendo dividido em 14 capítulos para o Antigo, e 5 capítulos para o Novo Testamento. A abordagem do autor se concretiza quando o mesmo apresenta suas posições exegéticas dos textos citados. Vos sempre aborda uma análise de progressão histórica do texto.

Os fundamentos do autor estão entrelaçados nos princípios orientadores que o mesmo roteirizou (cf. página 23). A teologia bíblica proposta por Vos, ao receber ataques do racionalismo da época do autor, têm como base uma exegese processada pelo registro bíblico, daí então o roteiro dos princípios orientadores, são destacados como harmônicos como resposta ao racionalismo, ou como o próprio autor declara: “Contra essas influências perversivas é importante expor os princípios pelos os quais o nosso tratamento da matéria é conduzido.” (p. 23). 

Destaco também a importância deste livro na ênfase do tratamento em que a narrativa do autor expõe o compromisso com a Teologia Bíblica e com o texto bíblico. A base da inerrância escriturística, na elaboração de uma Teologia Bíblica mais concisa, faz do livro de Geerhardus Vos, uma resposta à Teologia do nosso século, onde as Escrituras são tratadas, pelos racionalistas de plantão, como um livro ‘contendo erros’. Os dogmas que as Escrituras defendem são facilmente questionados por uma exegese fria e sem compromisso com o próprio texto sagrado. Nos dias atuais a obra de Geerhardus Vos, tem um compromisso com todos aqueles que zelam por uma Teologia Bíblica mais próxima do texto, do quê uma mera opinião filosófica.

Esse livro deva ser lido por todos aqueles que tragam na mente e no coração o compromisso de conciliar a teologia com a passagem bíblica, sem perder ambos os valores supracitados. Aqueles que desejam desfrutar de uma leitura descritiva e informativa, a obra de Vos, preencherá estes requisitos. Aqueles dos quais sofrem com os ataques levantados as Sagradas Escrituras, encontrará na abordagem de Geerhardus Vos o método apologético utilizado pelo autor diante do racionalismo como uma resposta agradável e comprometedora com os escritos bíblicos.

Na primeira parte, no Antigo temos os períodos mosaico e profético. Vos, apresenta, o lugar da Teologia Bíblica no círculo das disciplinas teológicas. Vos, define Teologia Bíblica como “… aquele ramo da teologia exegética que lida com o processo da autorrevelação de Deus registrada na Bíblia”. (p. 16). É apresentada a distinção entre a revelação geral e especial. (p. 36). O conteúdo da revelação antes e depois do pecado é abordado pelo autor. Vos, trata sobre revelação geral através de quatro princípios que se encontram na realidade humana. (1) O princípio da vida; (2) Do teste ou provação, ou seja, conhecimento do bem e do mal; (3) Da tentação e pecado; E (4) A morte. Vos, descreve o conteúdo da revelação especial seguindo o período mosaico. Os três períodos da revelação noaica, são apresentados como sendo; primeiro, o propósito de Deus de instruir uma nova ordem de coisas; segundo, as medidas tomadas para dar conteúdo e segurança a essa ordem; e terceira a nova ordem confirmada na forma de um berith, ou aliança. É abordada pelo autor a abrangência do curso subsequente da história da redenção. Geerhardus Vos responde a questão levantada, pela escola dos críticos Wellhausen, especificamente por Stade, sobre a existência dos patriarcas no campo da história. O autor confirma a existência, não como uma auto-idealização do povo de Israel, e sim através das raízes históricas do povo de Israel. Vos, comenta que “…se os patriarcas não eram históricos… seria difícil dizer por que isso deveria começar com Moisés. … A única posição lógica é que, se uma história da redenção é necessária, ela deveria começar com Adão e Eva”. (p. 91). O autor elabora respostas concernentes à posição hermenêutica da escola criticismo de Wellhausen, onde a mesma ensinava a falta do fator sobrenatural, como também a figura de Moisés como não histórica, tal qual a dos patriarcas. Vos, comenta da seguinte forma: “Essa escola de criticismo considerava todo o conteúdo legal e narrativo do Pentateuco, inclusive o Decálogo, como sendo de origem bem mais tardia do que a era mosaica. “… quão difícil explicar racionalmente a preeminência de Moisés na tradição religiosa de Israel. … chegam a conclusão de que a figura de Moisés é não-histórica, mas jamais existiu alguma pessoa com esse nome” (p. 130). Portanto, Vos apresenta sua desaprovação aos argumentos da escola de Wellhausen. Vos considera Moisés no organismo da revelação do Antigo Testamento como também, a forma e o conteúdo da revelação no período mosaico.
Na segunda parte, temos o período profético de revelação e o Novo Testamento. Concernente ao período profético, VOS, apresenta o lugar, o conceito, a história e o modo da revelação e comunicação do período profético de revelação. O argumento descritivo do autor propõe uma leitura sobre a progressividade na revelação no Antigo Testamento, ou seja, o processo de revelação em sua articulação. Vos, mostra os dois períodos principais do profetismo, o primeiro, como o avivamento profético no tempo de Samuel até os primeiros profetas do período do século oitavo a. C. (p. 231). O segundo se estende da outra metade do século oitavo a. C. até o fechamento da profecia no Antigo Testamento. Vos, comenta sobre esses períodos da seguinte maneira: “… o primeiro, a possibilidade de arrependimento e conversão… no segundo período, (arrependimento) não adquire um tom mais ou menos superficial”. (p. 232). Destaco as palavras de Vos centrado nos valores absolutos da escatologia, com isso percebemos a progressividade da revelação no Antigo Testamento, quando depois da metade do século oitavo a. C. os profetas começam a serem profetas escritores. Passando as futuras gerações as verdades escritas. Como Vos declara: “… o princípio de continuidade, ou seja, de uma história de redenção e revelação” (p. 233). 
Na parte do Novo Testamento, as estrutura da revelação são apresentados existentes como uma realidade da nova dispensação, como provenientes de as indicações do Antigo Testamento, dos ensinos de Cristo e, dos ensinos de Paulo e os outros apóstolos de Cristo. Vos, apresenta as interpretações bíblicas à encarnação de Cristo, que segundo o autor, “… no ensino joanino (de Jesus) esses são muito mais numerosos e evidentes; com Paulo, a doutrina emerge numa forma explícita completa; no prólogo do quarto Evangelho e em suas epístolas, o apóstolo João dá sua formulação clássica” (p. 369). A relação entre Cristo e João Batista é apresentada como estrutura da revelação messiânica nos escritos dos Evangelhos. No entanto, Vos declara que os escritores modernos tentam separar João Batista de Jesus, gerar um conflito entre o conteúdo da pregação de ambos. Esse pensamento era defendido por Baldensperger. Vos, comenta: “… eles assumem que os dois representavam movimentos religiosos separados, que continuaram a correr em paralelo por um tempo considerável.” (p. 377). Em relação à revelação na aprovação de Jesus, Vos, aborda as interpretações modernas direcionadas a tentação de Cristo. Vos, declara: “As intepretações modernas do evento mais em voga se deparam com dificuldades maiores ao sustentarem a impecabilidade de Jesus…” (p. 412). 
Há importantes detalhes nas Escrituras, no entanto, nenhuma delas supera a pessoa de Cristo. O autor deste livro aborda a atitude da Jesus em relação às Escrituras do Antigo Testamento. Vos, comenta isso a partir da visão messiânica nas Escrituras e sua dimensão religiosa, quando atinge o judaísmo e proporciona o cristianismo. Vos, declara: “Ele (Cristo) era a confirmação e consumação do Antigo Testamento em sua pessoa, e isso concedia um substrato de sua interpretação de si mesmo no mundo da religião. Ao mesmo tempo, isso é a prova da visão realista que ele adotou da religião do Antigo Testamento. Nem aquela, nem a própria religião, era uma religião de natureza pura e simples; ela era uma religião de interposições redentoras factuais com base em um prévio, mas obscuro, conhecimento natural de Deus.” (p. 431). 
A raiz de todo o Antigo Testamento evidencia a paternidade de Deus com o Seu Filho Cristo. Como também, o reino de Deus, como o reino de Evangelho do Filho de Deus, apresentado e manifestado como sinal messiânico. A essência e supremacia do Reino, apresentado pelo autor, traz o exercício da glória e teocracia manifestada pela esperança escatológica da mensagem do Messias de Israel, e a Igreja, como um convergir da igreja do Antigo Testamento a igreja do Novo Testamento. Ou seja, a compreensão do reino de Deus se preenche de fatos comprovados, quando esses fatos se completam. Nas palavras de Vos, “A Igreja nasceu e permanece sob a marca da consumação e descanso bem como de movimento. Ela consiste não somente de mero fazer, mas também de gozo, e esse gozo não pertence exclusivamente ao futuro” (p. 481).




































[1]* Ministro presbiteriano da congregação presbiterial em Santa Cruz do Capibaribe, PE. Formou-se em Bacharel em Teologia no Seminário Congregacional em Campina Grande/PB. Atualmente faz mestrado em Hermenêutica no Novo Testamento pelo Instituto Bíblico Betel Brasileiro em João Pessoa/PB.


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